Resposta ao leitor: Paulo ensinou a sola scriptura?


Um leitor anônimo deixou-nos comentário com pesadas acusações e sérias contestações à doutrina católica. Por serem muitas os assuntos por ele trazidos, e por se tratarem de temas bastante complexos, nossa resposta está sendo publicada em partes, pois as explicações às vezes se alongam. Leia a primeira parte da resposta aqui.

Abaixo a segunda parte da pergunta, seguida de nossa resposta.


Anônimo disse: "(...) não é minha intensão ofende-lo, mas preciso te alertar e discordar do que eu leio neste blog, e como o apostolo Paulo falou que qualquer palavra dita ou ensinada que não tenha base biblica que seja anatema. (...) Jesus está voltando buscar o seu povo e sinceramante de todo o meu coração, gostaria que você fosse com ele quando isso acontecer.

muitas coisas de errado estão acontecendo nas igrejas evangélicas, pois é a palavra de Jesus se cumprindo, onde ele fala que nos ultimos dias a apostasia seria muito grande e existiria lobos enganadores, mas vejo que não é por isso que eu vou abandonar a verdadeira fé que é em Jesus Cristo nosso salvador.

Basilio, sugiro que você pesquise mais sobre o catolicismo, procure ler os livros do padre Anibal Pereira dos Reis, ja será um bom começo e também em oração a direção de Jesus Cristo e uma leitura biblica.

Que o espirito santo possa te dar uma direção e aí vocçe vai ver que o protestantismo quando levado a sério é o verdadeiro ideal para nos revestirmos até o arebatamento.

Deus nos abençoe..."


Caro Anônimo,

Na postagem anterior eu já demonstrei, com toda a clareza, que nós, católicos, já aceitamos Jesus como nosso único e suficiente Salvador, há muito tempo. Fizemos isto bem antes de existir qualquer "igreja" dita "evangélica". Foi assim que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo nasceu, no momento em que o Apóstolo Pedro aceitou Jesus como o Cristo, o Filho do Deus Vivo, Senhor e Deus, como podemos ver no Evangelho segundo Mateus, capítulo 16. Esta é a origem da Igreja e do cristianismo. Só mais de mil e quinhentos anos depois é que surgiu o movimento denominado protestante, de onde derivaram, bem mais recentemente, as denominações ditas "evangélicas".

Seria interessante você entender, também, que os verdadeiros evangélicos somos nós, os católicos, já que se não fosse pela Igreja Católica, o mundo nem saberia que um dia Deus se fez homem e caminhou sobre a Terra, nem que o seu nome era Jesus, e muito menos alguém teria notícia daquilo que Ele ensinou e fez. Foi a Igreja Católica que produziu, canonizou e preservou os Evangelhos através dos séculos: tudo isso é história, é fato consumado. Portanto, somos nós os verdadeiros evangélicos: posso lhe assegurar que, em diversos documentos oficiais da Igreja Católica, desde muitos séculos passados, o povo católico é chamado de "povo evangélico". Os protestantes e os pentecostais eram chamados "crentes" ou simplesmente "protestantes"; - este nome, aliás, é bem mais apropriado, já que o movimento que deu origem a todas estas "igrejas" começou com o protesto de Martinho Lutero contra a Igreja Católica.

O fato é que apenas de algumas poucas décadas para cá alguns "pastores" de "igrejas" pentecostais e neopentecostais começaram a chamar-se a si próprios de "evangélicos". Infelizmente, a moda pegou, a imprensa aderiu e a injustiça se fez. Na realidade, porém, evangélicos sempre foram e continuam sendo os católicos. E, por falar nisso, "pastor" também sempre foi uma outra maneira de chamar os padres e os bispos católicos, desde antes de existir o protestantismo. Hoje, comumente, denominam-se protestantes as igrejas protestantes históricas, como a luterana, a calvinista e a presbiteriana, que até merecem o nosso respeito, com as quais a Igreja Católica mantém relações de amizade, numa busca por um ecumenismo válido. Já as comunidades normalmente chamadas de "evangélicas" são as de linha pentecostal e neopentecostal, como a "universal", a "mundial", a "internacional", a "renascer" e outras, sendo que estas desviaram-se completamente do Evangelho de Jesus Cristo e da Tradição dos Apóstolos.

Entrando finalmente nas questões apresentadas nesta segunda parte do seu comentário, anônimo, algo me chamou a atenção: "...como o apostolo Paulo falou que qualquer palavra dita ou ensinada que não tenha base biblica que seja anatema."(??)

O Apóstolo Paulo falou isso?? Ele disse que qualquer palavra dita sem "base bíblica" seria anátema?? Tem certeza? Que bíblia é essa você anda lendo? A tradução especial do "bispo Pedir Maiscedo"?

Perdoe-me a irreverência, mas veja como você se contradiz e, sem querer, acabou me dando a chance perfeita para lhe provar, com toda a "base bíblica" do mundo, que basear-se única e exclusivamente na Bíblia é uma tolice! Vejamos: você provavelmente está se referindo a esta passagem:

"Admiro-me que tão depressa passeis daquele que vos chamou à Graça de Cristo para um evangelho diferente! De fato, não há dois evangelhos: existem apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós, e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que seja anátema." (Gálatas 1, 6-8)

Meu querido amigo, eu sei muito bem que essa é uma das passagens favoritas dos "pastores evangélicos" para propagar mentiras sobre a Igreja Católica e caluniar os verdadeiros cristãos, os católicos. Sei disso muito bem porque eu mesmo, um dia, já acreditei nessas bobagens! Graças a Deus, com muita oração, estudo e uso do discernimento que Deus me deu, compreendi a verdade dos fatos a esse respeito, e posso lhe esclarecer também, se você tiver um pouco de boa vontade. Veja bem, Paulo não está dizendo aí, de modo algum, que se alguém falar algo que não conste nos quatro primeiros livros do Novo Testamento da Bíblia (os livros dos Evangelhos), deve ser considerado anátema. Ele não ensinou, jamais, a sola scriptura protestante, isto é, que somente o que está escrito literalmente na Bíblia é que serve como autoridade de fé. Não, não, nada disso! Como é que eu sei? Porque eu não leio só a Bíblia. Não basta ler só a Bíblia, e interpretá-la literalmente, ao "pé da letra", quando convém. É preciso entender o contexto histórico, cultural, sociológico e filológico da Bíblia. É preciso conhecer outras fontes históricas, é preciso conhecer o padrão mental da época.

É por isso que um sacerdote católico, para ser considerado apto a instruir o povo católico, precisa estudar por sete ou oito anos. Já para ser "pastor evangélico" pentecostal ou neopentecostal (segundo o testemunho de diversos ex-pastores como este, por exemplo) só é preciso ser "bom de lábia": comunicar bem e convencer as pessoas, isto é suficiente para subir ao púlpito e falar daquilo que ele acha que entende. Isso me lembra de uma outra passagem bíblica: "Se um cego guiar outro cego, cairão ambos na cova" (Mateus 15, 14)...

Mas, bem, agora que fiz uma afirmação, tenho que provar o que estou dizendo, não é verdade? É assim que deve proceder um cristão, ou qualquer pessoa que preze pela moral. E, nesse caso, provar o que falei é muito simples: acontece que, na época em que Paulo escreveu esta epístola aos gálatas, a Bíblia simplesmente não existia ainda! Quando ele diz, na tradução para o português, "Evangelho", está se referindo ao Evangelion, isto é, a Boa Nova, a Boa Notícia da Salvação em Jesus Cristo. Paulo não diz, de maneira nenhuma, que as pessoas precisariam se basear naquilo que está escrito nos Evangelhos da Bíblia (segundo Mateus, Marcos, Lucas e João), simplesmente porque esses livros ainda não haviam sido escritos!

Segundo a historiografia bíblica, a Epístola aos Gálatas foi escrita, no máximo, entre os anos 54 e 55, ou antes disso. Já o Evangelho segundo Marcos (κατὰ Μᾶρκον εὐαγγέλιον), o mais antigo, foi escrito em grego koiné (diferente do grego atual), pouco antes ou logo depois da segunda destruição do Templo de Jerusalém, que ocorreu em 6 de agosto do ano 70. Os Evangelhos de Mateus, Lucas e João foram escritos anos ou décadas depois. Conclusão: essa tese de que Paulo está ensinando que só devemos confiar naquilo que diz a Bíblia, é totalmente "furada" e desprovida de qualquer sentido! O que Paulo diz, isto sim, claramente, na Bíblia Sagrada, é o seguinte: "Escrevo para que saibas como convém andar na Casa de Deus, que é a Igreja do Deus Vivo: coluna e fundamento da Verdade!" (1 Timóteo 3, 15)

Sim. O grande Apóstolo Paulo está afirmando, categoricamente, com todas as letras, que a Igreja é a Casa de Deus, e que é ela, a Igreja, a coluna e o fundamento da verdade. Outras traduções dizem "a coluna e o sustentáculo da verdade". Em outras palavras, ele diz que a base, a coluna, o sustento da verdade de Jesus Cristo para nós, neste mundo, é a Igreja que Ele mesmo nos deixou, e não somente as Escrituras. Até porque foi sempre a Igreja que solidamente conservou e proclamou o Evangelho para o mundo inteiro, desde a Ascensão de Jesus até os nosso dias. Claro que esta Igreja é a Católica, a única que tem origem em Jesus Cristo, sendo que todas as "igrejas" protestantes e evangélicas surgiram a partir do século XVI.

Esperando que estes esclarecimentos tenham sido suficientes para as questões levantadas nesta segunda parte do seu primeiro comentário, para não me alongar demais e tornar a leitura cansativa, por ora despeço-me, desejando bençãos. Assim que me for possível, completarei a resposta ao seu comentário. Que Deus o guarde e ilumine.

0 comentários: